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Quinta-feira, Maio 24, 2007
Estava a observar o céu nublado com um ar infantil no rosto. Aquele tipo de coisa era o que eu ansiava por um bom tempo. Decididamente não gosto de olhar o céu sempre azul, com aquela cara de paisagem de aprendiz de pintor de aquarela que sempre pinta a casinha soltando fumaça pela chaminé no campo florido e que tem um belo fundo azul... Ui! Prefiro coisas mais sóbrias, densas, grotescas até. Então tomei meu chá preto com algumas gotas de leite, comi umas bolachinhas, enfiei meu chapéu na cabeça e debandei-me para a rua. Queria ver o efeito do tempo nublado na cara dos clones andantes bem de perto, clones estes, aliás, que se consideram seres humanos.
Por que, o quê? Que considero seres humanos como sendo clones? Ora essa! De quando em quando não dizem que tal criança é a cara do pai ou da mãe? Então... Clones... Ã, o que estava a dizer mesmo? Ah, sim; saí às ruas passear com meu ânimo enfiado no bolso e o chapéu sibilando uma canção dos The National sobre minha testa. Ótimo, pensei. Então dei de cara com um vento frio que arrepiou tudo. Minhas bolas quase gritaram quando o saco resolveu espremer. Mas tudo bem, gosto do frio. Só não gosto muito do efeito que ele causa em mim. Tremores, arrepios e a maldita coriza que surge para me incomodar nos momentos mais impróprios. Além da maldita idéia de ter de tomar banho. Pra que isto?
Entrei, depois de muito tempo sem fazer isto, no velho café que costumava freqüentar. Só velhos rabugentos, caquéticos, capengas, gagás... Bolhas; na verdade esta é a melhor definição para essa gente. Mas fiz de conta que nem conhecia ninguém. Se bem que nem os conhecia mesmo. Contudo, apesar de serem desconhecidos não os livra de meus comentários. Então me sentei à mesa, sozinho, de preferência, e pedi ao garçom um chá preto com leite e um pedaço de torta. Comi e bebi tranqüilamente, paguei minha conta, levantei-me e fui embora. Enquanto isso os velhos mofados, tagarelas e podres se entreolhavam e me olhavam como quem quisesse obter informações sobre minha pessoa e coisa e tal. Coisas de velho, naturalmente.
As coisas estavam chatas, os conhecidos não estavam comigo. Deviam estar ou dormindo, ou fazendo compras, ou mexendo com alguma menina nova que passa na rua com sua bundinha enfiada em justas calças, ou conferindo o resultado do jogo do bicho, ou tomando algumas doses de catuaba para fortalecer os ânimos, por que, ver bundas e chegar em casa com cara de bunda também não dá, ou ainda, e para completar, ouvindo músicas e mais músicas em rádios que possuem todo e qualquer tipo de sintonia. E estando as coisas chatas o melhor a fazer foi ir embora. Fui até a Rui Barbosa, tomei um ônibus e rumei para casa. No lotação encontrei o Beleléu enfiado num canto. Estava quieto, não parecia estar muito contente. Nem ao menos sorriu depois de ter me visto. Suas mãos e lábios roxos o denunciavam; estava com frio... Coisas de velho.
O frio deixou com que as pessoas ficassem zanzavando de um lado para outro nas ruas com cara de mesma coisa.
Oiram Bourges 15:49 [+]
Sábado, Maio 05, 2007
ANNO IV
Estava eu com a cabeça pensando numa música do Abba enquanto via a boca da minha sogra abrir e fechar em movimentos frenéticos. Na certa estava numa falação sem tamanho. E se bem a conheço, devia estar ela falando de coisas sem sentido... Aliás, ela sempre diz coisas sem sentido. Por sorte meus ouvidos se trancam automaticamente quando isto acontece. Mas talvez o que estivesse me deixando assim, desatento e com a cabeça numa música qualquer do Abba, e também meio não sei o quê, fosse o forte cheiro de cachaça que a velha exalava naquela tarde. Não que eu não goste do cheiro... Da cachaça, logicamente, mas misturado com cheiro de romópis mais o cheiro da mulher que lembra uma barra de sabão de coco... Definitivamente isto não me agrada em nada. Além do quê, ficar olhando a baba se acumulando, num primeiro momento num canto de sua boca, e depois assumindo a forma de uma pipoca saltitante que ia de um canto a outro naquele orifício bucal medonho me deixou perturbado realmente.
Contudo, pensei, tal bizarrice não poderia deixar minha tarde tão mais trágica do que ela já costuma ser; liguei para o Azambuja, para o Pereirinha, para o Adalberto, para o Odil e para um lá que não sei o nome a fim de comunicar-lhes que eu queria beber, e beber para esquecer ou riscar esta tarde de minha vida. Então combinei apenas com o Odil e este ser que não sei e também nem me interessa saber do nome dele, pois o Azambuja devia estar deitado ou contando quantos defeitos devem ter nas paredes da casa dele, ou as duas coisas juntas, sei lá. Já o Pereirinha devia ou estar se amarrotando com alguma nova namorada ou ameaçando se atirar pela janela de seu apartamento... Mas não precisa ficar assustado com esta atitude. Na verdade já vi estas coisas acontecerem algumas vezes... O cara é de morte; ele faz tudo sem medo, e o pior é que ele consegue fazer... Que bom... Para ele, claro, por que para mim isto não faz a menor diferença.
Quanto ao Adalberto... Este é complicado, digo, este é o mais complicado de se lidar, pois... Nem sei por que ainda tento ligar para este sujeito, nunca atendeu a um único telefonema meu sequer. Se bem que eu também não tenho o hábito de atender telefonemas, mas isso não conta, eu sou diferente mesmo, não preciso dar atenção a estes estúpidos aparelhos. Mas deixemos estes detalhes absurdos e vamos logo ao que interessa; acontece que teve uma festa, uma grande festa na verdade. O Odil, habilidoso que só ele, preparou um veículo especial para este dia, mandou fazer em enorme canivete suíço motorizado. Parece absurdo o que acabei de contar não é mesmo? Também pensei quando vi aquele trambolho estacionando, digo, subindo por cima das calçadas e derrubando umas duas ou três placas de trânsito logo de cara. E depois que toda esta bagunça começou acontecer a porra da lâmina do canivete gigante, lâmina esta que tinha pelo menos uns quatro metros de comprimento, soltou-se do corpo daquele negócio e decapitou outras três ou quatro placas de trânsito antes que eu pudesse piscar ou respirar... Um perigo esta coisa, isto sim.
Bom, ainda bem que não aconteceu nada além deste ocorrido. Então fui facilmente convencido de que seria bom eu ir até o bar, que iria ter bebidas e mais bebidas, comidas e mais comidas, agitos e mais agitos, além das exorbitantes ressacas e mais ressacas. No meu ponto de vista, uma coisa pra lá de tradicional. Mas tudo bem, fomos ao bar então, eu e o Odil a bordo do tal canivetão suíço. O problema não consistia em andar de canivete pelas ruas, o problema estava na tal da lâmina que volta e meia se desprendia do corpo do veículo. E quando isto acontecia dava pano pra manga para o velho companheiro proprietário do bar e do incrível canivetemóvel, pois a lâmina, de aproximadamente quatro metros, se projetava com uma velocidade estrondosa para frente e para um lado. Consecutivamente fazia com que o estranho automóvel perdesse o controle. Aí a gritaria era geral, tanto nossa quanto do pessoal na rua que via aquela monstruosidade praticamente se amontoando por cima de tudo quanto era coisa em seu dificultoso trajeto.
Lá pelas tantas, após muitos problemas com carros, ônibus, placas e sei lá mais o quê, chegamos definitivamente ao bar, e mortos de sede. Coisa esta que já era de se esperar, afinal de contas fazia calor. E chegamos botando pra quebrar com a merda do canivete-carro cheio de enfeites esparramados ao longo de seu formato oblongo. Agora você deve estar pensando que isto que estou contando é pura fábula ou uma coisa qualquer, mas não é não. Contudo, se quiser acreditar na história acredite, se não quiser... Que não acredite, oras. Só não me aborreça com perguntas impertinentes ou com tolices em forma de perguntas.
Retornando ao assunto; voltamos e estacionamos o veículo por cima de uma caçamba que estava no acostamento da rua, pois só havia este lugar com certa facilidade de estacionamento para aquela coisa do Odil. Mas também, quando conseguimos descer daquilo foi uma ovação só na entrada do bar. Uma enorme faixa de uma esquina à outra dando os parabéns para mim, isto pelo fato dos quatro anos de existência do blogue. Coisa esta que nem lembrava mais. No entanto tive um pouco de dificuldade para a locomoção pelo fato de meu pé de plástico ter engatado num daqueles apetrechos do tal canivete, e só consegui perceber a pequena tesourinha de um metro e oitenta de tamanho depois que já havia cortado uns dois dedos do cujo pé, mais um pedaço das minhas calças. Por sorte não sinto mais nem dor nem cócegas. Coisas estas que não suporto sentir. Tudo bem. O problema aí ficou apenas nas calças, mas... Tudo bem também.
Contudo acabou gerando um clima estranho entre os freqüentadores do boteco... Pois ninguém sabia se o ocorrido seria motivo para beber mais ou não. Com isso suas caras moles ficaram ainda mais moles pelo efeito da bebida que fazia tudo borbulhar em suas mentes alagadas de chope, e os sorrisos bobos e engordurados pelas costeletas de porco que estavam comendo continuaram bobos e até mais engordurados que antes. Então o maestro Matoso deu um ¿vai¿ e todos voltaram às risadas descoordenadas feito os passos ensaiados para a música que todos iriam dançar mais tarde na rua. Que música dançariam? Não sei, talvez a Macarena, ou talvez uma música do Menudo... Sei lá. O importante nesta história foi que ninguém ficou se reprimindo nos cantos do boteco. Aliás, nem tinha espaço suficiente para alguém se reprimir, pois o Distinto Cavalheiro estava simplesmente lotado. O máximo que poderia acontecer era do sujeito ficar espremido, isso sim.
Danças à parte os ensaios aconteciam por todas as partes e a todo momento.
Baterias de fogos estouraram incessantemente pela região do bar, muita animação... Até as moças da dita "vida fácil", que de fácil não tem nada, resolveram entrar na festa. Trataram de se organizar e... De que jeito? Não sei. E organizar aqueles que já haviam passado do ponto de bebedeira e se encontravam tombados nas calçadas e ruas. Agora difícil mesmo, além de conseguir um espaço suficientemente bom na calçada, pelo fato da quantidade quase incontável de pessoas, mais as dezenas de carrinhos de pipoca, cachorro-quente e outras coisas que nem lembro ou nem soube ao certo o que eram na verdade, espalhados pelos poucos metros quadrados de petit pavés dedicados ao estabelecimento em questão, foi de conseguir, de fato, ir ao sanitário. Ô dificuldade que foi isto.
Por lá todos bebiam... e bebiam de verdade. Não era só conversar fiada.
Os dois sanitários que ficam por lá, tranqüilizados em dias normais, estufaram com a enorme quantidade de pessoas que adentravam sequencialmente num ritmo frenético. O motivo, fora a quantidade absurda de chope consumido pelo pessoal, foi a degustação descoordenada e imprevista de um lanche diferente que uma empresa resolveu fazer. Comer a tal da Guacamole naquela noite deixou a mim e aos outros que lá estavam moles, e ainda, fazendo coisas moles. Particularmente falando, não foi nossa melhor escolha. Mas, enfim... Já foi. Então, músicas, bebidas, comidas, coisas moles, mais bebidas e comidas e mais coisas moles, gritarias, mais coisas moles e mais músicas à parte, era momento de regressar ao lar. Já se fazia tarde, e então, aproveitei a deixa de uma coisa mole e outra para correr até a Rui Barbosa e pegar o último ônibus para casa.
O pessoal da empresa, todos solícitos, ofereciam de bom grado o apetitoso prato.
Muita gente curtindo aquela fominha, de tanto beber, arriscou a tal da Guacamole. O resultado...
Contudo, nesta agitação toda da despedida... Do bar, logicamente, pois estava tudo muito cheio e não via quase ninguém de conhecido, encontrei meus amigos esbranquiçados e cambaleando de fraqueza na calçada. O motivo? Coisas moles. Bom, segundo eles estavam na festa desde quando ela começou, mas como estava insuportavelmente lotado, incluindo aí, e dando grande destaque ao sanitário, por causa da Guacamole, não conseguimos nos encontrar. Talvez até tenhamos entrados juntos alguma vez no banheiro, pois entrei tantas outras vezes e acompanhado com tantas outras pessoas que... Não dava tempo de esperar um sair para outro entrar. Ficávamos lá, num revezamento constante de vaso sanitário. Acredito até na hipótese de que o Odil irá substituir os azulejos e quadros que compõem tais cômodos, por que... Que coisa horrível. Sei lá. Tudo bem, sem problemas, digo, sem grandes problemas, pois a vontade de aliviar a bexiga era grande, além, é claro, das coisas moles também... Nada que uma porta de loja ou canteiro qualquer não resolvesse. Mas é isso. Até o nosso próximo encontro.
Tirando o pequeno probleminha ocorrido tudo se resolveu, e para variar, foi uma grande festa. Até a imprensa especializada esteve lá para cobrir o evento.
Oiram Bourges 16:55 [+]
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